segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Um passo de gigante


Ontem demos um passo de gigante... Apesar do primeiro lugar ainda não nos pertencer, sabemos que temos futebol, organização e disciplina para lá chegar num curto espaço de tempo. Neste momento, ser líder do campeonato e manter essa liderança até final da época será o objectivo perfeito.

Mesmo sabendo que provavelmente nenhuma equipa liderará este campeonato por muitas semanas - FCPorto, Sporting, Nacional e Leixões já lideraram nestas primeiras 7 jornadas - ambiciono chegar a esse lugar o mais rápido possível. Já não estamos no primeiro lugar do campeonato desde o dia em que o ganhámos pela última vez em Maio de 2005 - passaram mais de 1250 dias - e penso que está na altura de voltar a olhar para a tabela classificativa com o Benfica em primeiro lugar. A receita é fácil, apesar de complicada - ganhar, ganhar e ganhar...

Sou dos que desde o primeiro momento defendi Quique e toda a sua equipa técnica. Critiquei e criticarei quando achar que o Benfica entra nos jogos a pensar que já os ganhou - como aconteceu especialmente em Matosinhos perante o Leixões - mas nunca direi uma palavra contra uma equipa que mostra garra, atitude, espírito de sacrifício e uma vontade incrível de ganhar, como o fez ontem em Guimarães.

Podíamos ter empatado e se no último minuto tal acontecesse não alteraria absolutamente nada neste texto, porque no futebol ganhar ou perder depende dum lance de sorte ou azar, mas a atitude, a união e o espírito vão muito para lá da sorte ou azar e nesse particular o Benfica deste ano dá 10-0 a todos os "Benficas" dos últimos anos. Por essa razão é que desde Maio de 2005 que não somos lideres e na verdade nunca fizemos muito por sê-lo.

A união que Luisão voltou a referir ontem é fruto de um trabalho magnífico de todos quanto trabalham e organizam o futebol deste Benfica 08/09. Hoje há liderança na administração, na direcção desportiva, na equipa técnica e no plantel. O Benfica tem vários líderes e no meio de tantos nomes e de tantos jogadores de nomeada, todos sabem ser peças certas nesta engrenagem que é o plantel profissional do Sport Lisboa e Benfica este ano. Não há 11 eleitos apenas... O Benfica este ano são todos os que entram na equipa e os que ficam no banco esperando a sua oportunidade. Esta é a grande diferença deste Novo Benfica. São mesmo 27 e não apenas 11 mais 3...

A capacidade de liderança de Rui Costa é notável. Ontem desceu ao relvado e obrigou (ou talvez seja melhor aplicar a expressão "sugeriu") que os jogadores fossem perto da bancada agradecer o apoio incondicional dos adeptos à equipa. Sente-se que a união começa no seu director desportivo e nos dias em que as derrotas chegarem, acredito que será o primeiro a baixar ao relvado e apoiar esses mesmos jogadores. Hoje há uma equipa unida em todas as suas vertentes.

Sofrer faz parte do jogo e não conheço campeões sem sofrimento. Em sete partidas de campeonato já jogámos metade de duas dessas partidas com 10 jogadores - contra FCPorto e contra Guimarães que foram respectivamente primeiro e terceiro da anterior Liga - e não perdemos nenhum desses jogos. Não os perdemos porque como também dizia Luisão na noite de ontem, "o Benfica está a tornar-se uma família, com os jogadores a correrem uns pelos outros. Cada lance em que somos felizes é também por aqueles que não estão a jogar". Acrescentou que depois do intervalo "reentrámos determinados, pois decidimos que tínhamos de correr pelo Reyes, face à sua expulsão". Assim continuem solidários, porque esta será a chave para o sucesso deste campeonato.

Espero sinceramente que o trabalho continue a ser bem assimilado por todos e que possamos aproveitar esta onda vitoriosa com mais uma vitória frente ao Galatassaray na próxima quinta-feira. Agora que vamos estar em casa nos próximos três jogos - Galatassaray (dia 6), Desportivo de Aves (dia 9) e Estrela da Amadora (dia 16) - espero que o público apareça em massa nestes mesmos jogos e que mostre que este ano há uma cumplicidade diferente entre equipa e adeptos. Ao contrário de outros anos, estamos todos a torcer para o mesmo lado, com a paciência de quem sabe que o tempo joga a nosso favor. Ontem, demos um passo de gigante em toda a linha...

Força Benfica

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Obscenidades várias...

Tenho tido pouco tempo para passar os olhos nos blogs vizinhos que tão bem falam e opinam sobre o nosso Glorioso, mas hoje consegui fazê-lo de forma mais calma e deparei-me com coisas tão escandalosas que nem sei que adjectivo colocar no tópico deste texto.

O nosso colega do "Fórum Benfica" escreve aqui várias considerações sobre os dinheiros que cada um dos "grandes" receberam pela construção e acessibilidades dos seus respectivos estádios. Peço-vos que leiam e que meditem sobre tudo o que ali se retrata, questionando-se a si próprios porque razão estes números são retirados dum blog credível mas obviamente marginal em termos de audiências e não dum jornal de grande tiragem nacional...

Neste mesmo blog pude ver aqui um resumo das contas do FCPorto, onde concluí o que já há muito tempo vinha desconfiando - o que no Benfica se afigura como uma década de estabilidade e prosperidade financeira, no FCPorto afigura-se como a década da queda do "gigante com pés de barro". Pode ser que me engane, mas...

Força Benfica

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Gerir as expectativas

Tenho aqui falado muito na capacidade que um bom presidente, administrador, director ou treinador devem ter na "gestão de expectativas" e o Benfica não foge à regra. Desde o início da época que tenho tentado com textos que valem o que valem, alertar para esta fundamental arma que é a "gestão de expectativas".

O Benfica começou mal a época porque as contratações não vieram no tempo correcto, as dispensas não foram feitas na altura certa e tentámos mudar (quase) tudo duma só vez. No início de campeonato tivemos todos um travo amargo na boca, sentindo que uma vez mais ou nossos adversários, mantendo equipas técnicas e estruturas base de plantel levavam-nos avanços consideráveis.

A verdade é que ao olharmos para o nosso umbigo de forma crítica e a lermos os jornalistas do costume a dizer que na vizinhança tudo corria bem - estabilidade na direcção técnica, estabilidade nos respectivos plantéis, reforços em posições chave - pensámos que iríamos arrancar muito mal e eles muito bem.

Na verdade nós não arrancámos muito bem, mas eles arrancaram pior. Luisão dizia ontem que "este ano o público aplaude e incentiva mesmo quando as coisas não correm bem" e isso tem exactamente a ver com esta "gestão de expectativas" que falei durante muito tempo. A percepção que nós temos da necessidade de dar tempo à equipa, a percepção que todos temos que devemos apoiar uma equipa em construção, uma nova estrutura técnica e a percepção fantástica que nos diz que assobiar nesta fase não ajuda em nada (eu acrescento que nem nesta fase, nem em fase nenhuma) faz com que perdoemos muito melhor um deslize ou um pior resultado esta época que em qualquer das nossas últimas temporadas - apesar de tudo já empatámos com Rio Ave, Porto e Leixões.

Neste momento somos terceiros na Liga. É uma classificação normal à sexta jornada para a tal "equipa em construção". Anormal é termos Nacional e Leixões a partilhar o comando mas isso revela que afinal o nosso campeonato pode ser competitivo e vai sê-lo cada vez mais nos próximos anos. Continuando nesta gestão de expectativas e sabendo que num campeonato longo o que hoje é uma vantagem pontual, amanhã é um atraso fruto dum empate ou derrota inesperada, espero que possamos manter esta paciência e esta cultura adulta de quem sabe que o caminho está a ser bem definido, mas que nada se ganha em Outubro - ou em Setembro, em Janeiro ou em Fevereiro (nestes meses só se pode perder).

Nos nossos adversários mais directos as expectativas eram altas. Iam lutar um contra o outro pela liderança do campeonato, enquanto o Benfica ia ser o eterno terceiro a tentar aproximar-se dos "estáveis" Sporting e FCPorto.

Apenas a 1 ponto do Benfica, o FCPorto já tem lenços brancos na bancada, adeptos com pedras na mão a lembrar-nos a razão pela qual o FCPorto nunca terá expressão nacional - o treinador Jesualdo foi campeão por duas vezes e na última vez com uma dezena de pontos de avanço - e o Sporting ainda sem lenços brancos não consegue já calar a crítica popular a Paulo Bento por opções disciplinares/técnicas duvidosas - exemplos de Stojkovic, Vukcevic, Djaló e Miguel Veloso.

Não gosto de falar dos adversários, e a verdade é quanto pior lhes correr a vida melhor me sentirei, mas tenho que admitir que Paulo Bento teve muito bem em não convocar os jogadores Yannick Djaló e Miguel Veloso para o jogo de Paços de Ferreira. As notícias vindas hoje a público, confirmam que o empresário Paulo Barbosa levou os seus jogadores a reunirem com a SAD onde se criticou abertamente as decisões técnicas do treinador Paulo Bento (que colocou Veloso a defesa esquerdo contra o Shakhtar Donetsk em detrimento da sua "normal" posição de "trinco" e que colocou Djaló no banco depois de um começo brilhante com golos contra FCPorto na Super Taça e contra Trofense para o campeonato) e onde se criticou uma vez mais o valor das cláusulas de rescisão que ambos os jogadores assinaram sem "nenhuma espingarda apontada nas suas cabeças". Sobre este assunto da intromissão dos agentes no trabalho técnico e nos contratos que os seus jogadores assinam já falei aqui, mas tenho que voltar a referir que a culpa também é dos clubes que dão uma importância a estes empresários que eu não entendo - porque é que a administração da SAD leonina aceita uma reunião com o agente Paulo Barbosa no dia 23 de Outubro, quando o mercado está fechado e não se afiguram nenhumas possibilidades reais da venda de nenhum dos seus activos? Pouco me importa porque na casa dos outros, não mandamos nós...

No entanto, podemos opinar sobre essas mesmas casas. Tenho nestes textos utilizado alguma ironia na questão do Cristian Rodriguez (como o fiz aqui ou aqui) e alguma seriedade (como fiz aqui ou aqui). No entanto, nunca desejei ou desejaria a qualquer pessoa o que aconteceu este fim de semana a Cristian Rodriguez. Alguns relatos dizem que o seu carro foi apedrejado por vândalos ligados à claque Super Dragões, e que nessa viatura apedrejada, além de Rodriguez viajavam seus familiares como a sua filha menor. Também pelo que se lê em blogs e publicações desportivas nacionais (as ligadas ao FCPorto preferiram não escrever nada contribuindo uma vez mais para elevar o excelente jornalismo que já praticam diariamente), Pinto da Costa esteve no balneário da equipa após a derrota contra Leixões. Uns jornais dizem que Pinto da Costa desceu ao balneário para "dar confiança a Jesualdo" enquanto noutras publicações se lê que o presidente desceu ao balneário para "dar um puxão de orelhas aos jogadores". O que é inequívoco é que passadas 72 horas sob o triste episódio, Pinto da Costa não proferiu uma única palavra contra os actos bárbaros que foram efectuados por adeptos ligados ao FCPorto. Para quem se considera uma pessoa Humana, o seu silêncio é demasiado velhaco.

Eu acho que o Rodriguez esteve muito mal em todo o processo de saída para o FCPorto e tenho textos onde coloquei bem expressa a minha opinião. Mas não tenho pela pessoa nada a apontar e cada vez que se assobia algum jogador adversário num recinto desportivo, todos o fazemos por razões de clubismo óbvias mas nenhum de nós quer que algo possa acontecer a esse jogador. No meu caso, nem uma lesão por mais pequena que seja gosto de ver num relvado de futebol em qualquer equipa adversária. Espero sinceramente que o Rodriguez, o Postiga, o Cardozo ou outro qualquer jogador não tenham que passar por estas situações (ainda por cima com filhos no carro) de nenhuma maneira, sob nenhuma condição, mesmo que para os dois primeiros o meu desejo sincero é que desportivamente percam muitos dos seus jogos, porque isso beneficiaria o Benfica.

Por falar em Benfica, e para terminar o tópico que dá título a este post - "gerir as expectativas" - espero que todos possamos entender que ainda temos muitos pontos para perder, algumas derrotas para sofrer e que devemos aprender com os erros de expectativa destes nossos vizinhos, mantendo sempre os pés bem assentes no chão. Este domingo segue-se outro jogo difícil e como sempre, espero que possamos continuar a crescer como equipa e nesse crescimento que possamos ir amealhando os pontos necessários para chegar ao primeiro lugar o mais rápido possível. Não podemos nunca esquecer que para o objectivo principal desta época - ser campeão - só temos que ter mais pontos que todos os outros na última jornada e que num deslize ficamos nós atrás e os outros dois à frente. Desejo união, porque sinto que ao contrário dos nossos adversários, este é ainda o nosso ponto mais forte. Temos a equipa unida e os adeptos unidos com a equipa.

Força Benfica

domingo, 26 de outubro de 2008

A Maldição de Cristian Rodriguez

Há alguns dias aquando do nosso empate no campo do Leixões disse que:

"Apesar de tudo, ganhámos 1 ponto a uma equipa que há quinta jornada só perdeu 1 jogo. Para a próxima jornada prestará vassalagem nas Antas e perderá o segundo, porque no futebol há coisas que nunca mudam. Ou talvez não... Veremos"

Pelos vistos as coisas estão mesmo a mudar. O José Mota ganhou pela primeira vez no Estádio do Dragão quebrando uma larga maldição, pois era o único estádio onde José Mota não tinha ganho nunca. Aliás, José Mota passou anos e anos a dificultar a vida a todos os outros clubes e a descansar cada vez que se deslocava às Antas. Desta vez, correu tudo bem e no meio de tanta Festa dos homens de Matosinhos, o que estará menos contente será mesmo José Mota que quase acabava a sua carreira sem ganhar ao seu clube de coração. Há dias maus para todos e desta vez se calhar os jogadores lixaram-lhe os planos. Aliás o que eu estranhei (ou nem tanto) foi que o José Mota hoje nem criticou a arbitragem absolutamente vergonhosa de Paulo Baptista, que até se deu ao luxo de roubar um um golo limpo ao "seu" Leixões. entre outras habilidades... Ele, que como se sabe, não deixa passar uma semana sem falar ou criticar as arbitragens. Desta vez, teve medo que depois da desfeita da vitória nas Antas, as suas palavras fossem "mal recebidas pelos seus amigos dragões". Como o compreendo...

Eu fiquei contente e penso que é muito positivo que um clube modesto mas com tradições futebolísticas lidere a prova depois dum empate contra Benfica e vitória contra FCPorto.

No entanto, a verdadeira razão para estes tão maus resultados do FCPorto só pode ter a ver com a decisão do azarado Cristian Rodriguez em mudar-se para os ares do norte. Este homem sozinho, conseguiu que o Paris Saint Germain quase descesse de divisão, que o Benfica tivesse uma das suas piores classificações de sempre, e agora que ia finalmente para a equipa que ganha constantemente - "Admirava o FC Porto porque ganha sempre." Cristian Rodriguez, 12 de Julho 2008 - Rodriguez encontra-se perante derrotas contra Dínamo de Kiev e Leixões na mesma semana e entre outros empates e derrotas que ele tão bem conhece desta época - até perderam o jogo de apresentação em casa....

Obviamente que tudo isto pode mudar rapidamente mas sinto que este ano as trapalhadas vêm todas do mesmo lado. É incompreensível que uma equipa que se reforça, mantém a estrutura técnica e depois de ganhar o campeonato com 20 pontos de avanço deita tudo a perder em tão curto espaço de tempo. Claro que ainda estamos no inicio mas a vantagem de poder arrancar de forma fulgurante e ganhar avanço considerável para os seus mais directos adversários, não passa neste momento duma ilusão.

Que os nossos jogadores hoje, vistam o fato de macaco e que não percam a oportunidade de arrancar para um novo ciclo de vitórias que tanto necessitamos.

Força Benfica

sábado, 25 de outubro de 2008

20 milhões de espectadores nos próximos 15 anos?

O nosso Estádio da Luz celebra hoje o seu quinto aniversário. Lembro-me perfeitamente desse 25 de Outubro de 2003 e sei que as lembranças desse dia ficarão para sempre na minha memória. Passei muitas e muitas vezes pelo novo Estádio em construção e fui analisando por fora toda a evolução da obra desde os tempos em que víamos essa mesma construção do Estádio antigo até ao ponto em que já não havia sequer Estádio antigo. Tive uma ou outra oportunidade de acompanhar as obras por dentro, que sempre recusei a pensar no exacto momento em que entrasse no novo Estádio da Luz.

Sei que por motivos profissionais tive que viajar do norte para Lisboa e voltar ao Norte de Portugal imediatamente depois do jogo, fazendo com que chegasse pouco tempo antes do apito inicial. Não assisti a toda a festa envolvente antes do jogo e quando cheguei lembro-me que já estava o estádio completamente cheio.

Comprei um bilhete de terceiro anel - afinal o mítico terceiro anel também existe no novo Estádio - e fui bem lá para cima, sozinho, molhado da chuva que se fazia sentir lá fora. A primeira impressão que tive ao subir as escadas deste novo terceiro anel é que o "cimento" do novo Estádio estava à vista como acontecia no antigo Estádio. Senti uma sensação algo similar ao que vivi muitos anos ao subir o Estádio antigo. Gostei. Quando cheguei lá acima senti as mesmas semelhanças. Antes de entrar na porta que me levaria ao meu local, senti uma vez mais que o passeio com vista para a rua me fazia lembrar o antigo Estádio o que sinceramente me alegrou bastante. Quando entro no Estádio e vejo as 60 000 pessoas em festa fiquei feliz, mas a verdade é que foi uma felicidade nostálgica e não entendi bem porquê. Seria por estar sozinho, distante dos meu habituais companheiros de "bola"? Seria por estar o tempo cinzento de chuva a fazer com que o meu estado de espírito fosse ele também cinzento? Seria um último momento de saudades do antigo estádio? Não entendi mas sei que passou rápido. Não me lembro do jogo... Passei muito tempo a avaliar tudo o que tinha a ver com o Estádio que acabo por não ter grandes recordações da partida de futebol propriamente dita. Também não era importante...



Sempre fui defensor do novo Estádio apesar de sentir que foi no antigo que o Benfica se fez Glorioso. Na vida, as mudanças não são fáceis mas esta mudança era essencial, imprescindível O conforto que os "novos clientes" do desporto exigem não eram minimamente compatíveis com o que oferecia o nosso antigo Estádio e as receitas anexadas a esse Estádio eram absolutamente irrisórias quando comparadas com as receitas geradas por este novo Estádio.

Parabéns ao Benfica pelo quinto aniversário do Estádio de todos nós.

Parabéns também pelo número absolutamente notável de 5 milhões de espectadores em 5 anos. No entanto, os próximos anos têm que mostrar um potencial ainda maior de ocupação do Estádio. Este é o grande desafio da próxima década. O Benfica nos próximos anos vai fechar o project finance acabando de pagar este grande investimento e desenvolver uma série de projectos que podem gerar receitas extraordinárias muito importantes - teremos seguramente mais sócios (mas não tantos mais sócios assim); teremos mais novas receitas com as negociações dos contratos de merchandising, da marca de equipamentos (Adidas ou outra marca), do naming das bancadas e do próprio nome do Estádio; teremos seguramente receitas extraordinárias associadas aos novos contratos de transmissão televisiva e teremos obviamente novas receitas geradas pelas novas tecnologias e por novos meios de distribuição da marca Benfica.

Tudo isto me parece óbvio e fico muito feliz por neste particular as contas irem tão controladas e sustentadas, fazendo com que o Benfica possa realmente sonhar em voltar a ser um grande da Europa, mesmo num campeonato que gera muito menos receitas que campeonatos vizinhos.

O que me parece que tem de ser feito neste momento é uma campanha de "quase marketing social" como nós vimos em outras áreas da nossa sociedade, em vários meios - TV, imprensa e outdoors. Como exemplo temos as campanhas de sensibilização para a utilização do cinto de segurança, campanhas de sensibilização para a redução do álcool em situações que envolvem condução, a prevenção da SIDA com a promoção da utilização sistemática do preservativo, etc... Estas são campanhas que não se medem no "fim de semana seguinte" mas sim na década seguinte.

O Benfica tem de traçar objectivos claros nesta matéria. Nos próximos 15 anos devemos ter 20 milhões de espectadores no Estádio, o que pensando na hipótese de ter 400 jogos nesses mesmos 15 anos - nestes 5 anos tivemos 131 partidas - dará uma média de 50 000 espectadores, contra a (boa) média inicial de 38 000 espectadores nestes primeiros 5 anos.

Eu conheço todas as teorias que nos dizem que o nosso tecido urbano não se compara com o de Madrid ou de Barcelona, que a nossa competitividade no campeonato é incomparável a outros campeonatos, que temos jogos da taça da liga e da taça de Portugal que muitas vezes não são grande conteúdo para quem vai ao Estádio, mas tudo isso são as ameaças que temos de transformar em oportunidades.

Quem gosta do Benfica e se habitua a ir ao Estádio, terá esse hábito para sempre. O conforto que temos neste Estádio, aliado a um ou outro requisito tecnológico que nos permitirão ver outros ângulos do jogo no telefone ou em outras quaisquer máquinas portáteis, ajudarão a viver uma experiência muito melhor no estádio do que no sofá de casa.

Claro que estas campanhas de "marketing social" que falava há pouco deviam ser pensadas e executadas pela própria Liga e cada clube potenciava essa campanha com outras campanhas mais localizadas, mas é importantíssimo que as pessoas sintam o apelo do Estádio.

Todos sabemos que quanto melhor a performance da equipa, melhor o desempenho da bilheteira - sempre foi e sempre será assim. No entanto, também sabemos que nos próximos anos teremos momentos bons e momentos maus e também sabemos que ter gente no estádio pode estar directamente ligado à venda de mais cativos - outro importante factor de receita do clube. Apesar de sabermos que os cativos não vão a todos os jogos e muitas das vezes temos "bilhetes vendidos" no cartão de cativo com lugares vazios, é fundamental aplaudir o esforço feito pela direcção e administração em fomentar o apelo ao cativo. Essa pode passar por ser uma das soluções mas não é seguramente a única.

Dizia o nosso administrador Domingos Soares Oliveira hoje em pequena entrevista ao jornal "A Bola" que o Newcastle mete 20 000 pessoas a almoçar em dias de jogo no seu Estádio. Obviamente que essas receitas extraordinárias são fruto duma cultura de Estádio diferente da que temos em Portugal. Nos jogos de basket da NBA é normal vermos pessoas abandonar a sala durante o jogo para ir jantar e mesmo que não vão jantar, todas as pessoas comem ou bebem algo durante o jogo. No Estádio da Luz mais importante que pensar nas receitas extraordinárias associadas ao jogo - merchandising, alimentação - temos de focar no número de espectadores que em média se deslocam ao nosso Estádio e analisar que variáveis externas ao jogo, ao plantel, ao sucesso da equipa, podem ter ou não influência nessa deslocação de pessoas ao Estádio - estacionamento, transportes públicos, acessibilidades, hora do jogo, etc...

Temos visto que as Casas do Benfica têm feito um trabalho notável na gestão e organização de excursões que de alguma maneira habituam as pessoas a vir mais vezes ao Estádio. Não tenho dúvida que uma geração mais nova tomará conta dos destinos dessas mesmas Casas do Benfica e provavelmente outras formas mais criativas de trazer pessoas ao Estádio serão desenvolvidas.

Um dos factores que traria muito mais excursões ao Estádio da Luz era voltarmos a ter jogos à tarde porque isso permite que se volte a casa em tempo útil. Não sei se num futuro próximo isso será realmente possível. Estou convencido que há leis em Portugal que podem mudar e uma delas é essa proibição de se transmitir televisivamente jogos que colidam com outros jogos de divisões inferiores. Não sei se o Pay Per View individual influirá nesse particular - em Espanha podemos comprar jogos de Pay Per View que se desenvolvam a qualquer hora - mas sempre tive a noção que quanto mais cedo for o jogo, mais gente levará ao Estádio.

As soluções para chegar a este mágico número de 20 milhões de espectadores em 15 anos são muitas - umas de fácil implementação, outras muito complicadas - mas penso que poderá ser possível chegarmos a um número próximo dos 20 milhões de uma forma realista.

Neste momento apenas nos resta celebrar o maravilhoso número de 5 milhões de espectadores em 5 anos em 131 partidas e esperar que amanhã possamos chegar aos 5000 golos marcados em todas as competições. Noutros tempos, noutro Estádio, pedir-se-iam os 5-0, mas eu apenas peço a vitória...



Força Benfica


segunda-feira, 20 de outubro de 2008

As Lições dos Pequenos

O Benfica é Glorioso e será sempre o Maior, para quem realmente tem o clube no coração e assim deverá continuar. No entanto, a humildade dos grandes também é aplaudir os pequenos e tirar ilações (ou lições) desses mesmos pequenos.

Isto a propósito dos três últimos jogos contra "pequenos" - Paços de Ferreira, Leixões e Penafiel. Ganhámos o primeiro por 4-3 mas tivemos que correr muito e jogar ao melhor nível para levar os três pontos de Paços. Parabéns ao Paços pela atitude e competitivade. Empatámos em Matosinhos contra um Leixões grande demais para ser considerado pequeno. O empate foi lisonjeiro para a nossa equipa e escrevi-o aqui. Ontem contra o Penafiel, uma equipa da segunda divisão B a jogar no Estádio da Luz, vimos um Gigante que quase eliminava o Benfica pela simples razão que teve atitude, coragem (especialmente de defender acima das linhas recuadas) e muita determinação em fazer História num palco a que não pertence no presente mas que pertenceu num passado recente (e a ver pela exibição pode ambicionar a voltar num futuro).

Eu não vou alinhar pelo diapasão de criticar de forma gratuita o trabalho de Quique ou dos jogadores que ele elegeu para jogarem esta partida. Nada disso. Vou aplaudir a atitude do Penafiel e esperar que o Benfica tenha a mesma atitude em TODOS os jogos que dispute esta época. Obviamente que temos mais qualidade individual e obviamente que a nossa equipa técnica é melhor que a do Penafiel mas a atitude competitiva perante o jogo tem de ser SEMPRE no limite. Já todos entendemos que mesmo ficando em quarto lugar no ano passado, temos sempre equipas preparadas para nos derrotar. Por isso somos Gloriosos e Grandes. Não trocava esse título por qualquer outro, mesmo que isso me desse mais facilidade de jogar contra os pequenos.

Esta é uma das grandes lições que temos de retirar dos ditos "pequenos". Se essas equipas estão SEMPRE preparadas para jogar o jogo da vida delas contra o Benfica, o nosso Benfica tem de jogar o jogo da nossa vida casa semana. Não há outra hipótese. Temos de jogar todas as semanas, independentemente dos 11 eleitos, nos máximos limites competitivos.

Vamos ter sempre os melhores guarda redes contra nós, vamos ter sempre os melhores avançados prontos para nos marcar e vamos ter sempre o conjunto mais bem preparado para nos derrotar. Ainda bem que assim é... A sério. Sei que contra os nossos rivais alguns dos pequenos amedrontam-se enquanto contra o Benfica agigantam-se. Repito, ainda bem. Não vejo nisso um problema, mas vejo nessa atitude constante dos nossos adversários um alerta geral para o que devemos e temos que fazer. Jogar SEMPRE nos nossos limites.

Ontem, na roleta dos penaltis pensei no que correu mal na partida. E não critico nenhuma das opções de Quique. Entendi-as no inicio e entendo-as no final. Aliás, no dia anterior o nosso treinador dizia isto a propósito das alterações que ia fazer na equipa:

"Parto do princípio todos os jogadores, se estão no plantel, é porque têm qualidades. Temos 27. Seria subestimá-los pensar que um deles, sequer, é incapaz de jogar contra o Penafiel, na Taça. Seria decepcionante para mim constatar amanhã [hoje] que tinha jogadores no plantel que não conseguiam jogar este jogo. Seria sinal de que algo falhara. Confio em todos os meus jogadores. Vou escolher uma equipa com a mesma esperança e determinação de que podemos fazer um bom jogo, e como se o jogo fosse com o Sporting, o FC Porto ou o Nápoles!"

Estas frases descrevem em absoluto a atitude que deseja Quique, desejo eu e desejamos todos - que o plantel do Benfica cumpra sempre e que deixe tudo em campo independentemente de quem joga, porque se estes jogadores fazem parte do plantel, é porque têm muita qualidade e responsabilidade. No final do jogo de ontem as suas palavras resumem-se neste parágrafo:

"Qualquer jogo deve ser abordado com a seriedade e o rigor necessários. O que se passou é que faltou intensidade e quando nos falta intensidade iguala-se a categoria, o talento, o jogo equilibra-se. Lamento este sofrimento desnecessário e o desgaste físico em vésperas competição importante. A única coisa positiva hoje foi que passámos..."

Análise certeira e madura como aliás se espera de alguém que em nenhum momento pode ter o lugar em perigo. Digo isto, porque caso os penaltis tivessem corrido mal, hoje teríamos um coro a pedir a cabeça de Quique e tenho que dizer bem alto que a única coisa que temos e devemos ter certa nos próximos três anos (eu não admito sequer que ele não faça 2 épocas mais 1) é que Quique e sua equipa técnica são intocáveis.

Já nos deu TODAS as razões para entendermos que se trata doutra classe de treinador. Como bom treinador aprenderá as lições que os pequenos nos dão. Exigirá a todos os elementos do plantel responsabilidade e profissionalismo da mesma maneira que nós a ele lhe exigimos trabalho e disciplina. Só com exigências ao máximo em TODOS os jogos do campeonato, taça de Portugal, taça Uefa e taça da Liga podemos aspirar a ser felizes esta época. Não há outra forma.

E se queremos seguir o exemplo dos pequenos, que mostram toda a sua garra contra o Benfica também podemos olhar para dentro e seguir o exemplo dos suplentes do nosso Plantel. Um especialmente, que há três anos que não joga um único jogo oficial e que nunca criticou nenhuma opção de nenhum treinador, que nunca ousou treinar menos ou pior pela sua razão de suplente e que ontem deu uma lição de humildade, profissionalismo e de Mística Benfiquista. Sobre Moreira, Quique disse ontem:

"Moreira merece-me o maior respeito como pessoa e profissional. Dá-nos alegria no balneário, esforça-se ao máximo e é quase sempre o último a sair do relvado. Além disso, é dos estudiosos, dos que chegam a casa revêem as partidas e tiram as suas conclusões. Alegra-me muito que tenha jogado três anos depois".

Não mudaria a minha opinião sobre Moreira se não tivesse defendido nenhum penalti ou se tivéssemos sido eliminados pelo Penafiel porque este é um dos Grandes do Novo Benfica. Disse há umas semanas que "precisava-se fato macaco" para este Benfica. Eu penso que Moreira personifica este fato macaco que necessitamos e espero realmente que todos entendam que teremos que ter fato-macaco, fato de gala e alguma elegância (sempre juntos) para podermos ganhar todos os nosso jogos.

Aprender com os pequenos e seguir os seus exemplos de humildade, profissionalismo e seriedade - no fundo os mesmos exemplos que eles retiram do Glorioso e que estão personificados nessa Mística tão nossa - é a chave fácil para o sucesso nesta época.

Força Benfica

sábado, 18 de outubro de 2008

Entrevista de António Lobo Antunes ao Jornal "A Bola" 18/10/08


António Lobo Antunes
O arquipélago do futebol

Admirável poeta de prosas, António Lobo Antunes acaba de publicar o 'Arquipélago da Insónia'. Gosta tanto de futebol — o futebol do desporto, não o da indústria — que alguém, um dia, lhe chamou o Eusébio das letras. «O Eusébio é responsável por algumas das minhas alegrias; António Lobo Antunes por algumas das minhas maiores chatices» — respondeu então. O único escritor português vivo nobelizável concedeu a A BOLA — seu jornal de sempre — uma tão surpreendente como fantástica entrevista.

Entrevista de Vítor Serpa

Trouxe comigo uma entrevista sua, dada ao Carlos Miranda, de há vinte anos. Uma entrevista notável...

— Tive esse privilégio. A BOLA sempre teve grandes jornalistas e uma grande preocupação cultural. O Miranda era um desses grandes jornalistas. É uma pena que as suas crónicas da Volta a França nunca tenham sido publicadas em livro. Aquelas crónicas com o Agostinho são admiráveis e olhe que este é um termo que eu uso muito poucas vezes...

— Lembra-se dessa entrevista?

— O Carlos Miranda fez-me várias entrevistas. Gostava muito dele, ele pedia e eu não conseguia dizer-lhe que não. Felizmente tive oportunidade de dizer ao Carlos Miranda que ele tinha uma espantosa qualidade literária. Ficava a olhar para mim, surpreendido. Era um homem que eu muito admirava.

— O Pinhão também falava muito consigo...

— Havia mais uma série de jornalistas de A BOLA que escreviam admiravelmente. O Carlos Pinhão, que eu conheci bem e outros que não conheci, mas que igualmente admirava. O Aurélio Márcio, O Homero Serpa...não sei, sequer, se era da sua família...

— Meu pai...

— Excelente qualidade literária. Escrevia muito bem. E mais. O Alfredo Farinha e, de uma geração mais recente, o Santos Neves.

— Já lia A BOLA, quando era jovem?

— Havia três jornais desportivos de que me lembro. A Bola, o Norte Desportivo e o Record. Eu, os meus irmãos e os meus amigos, sempre compramos A BOLA. As crónicas de futebol eram muito bem escritas. Não havia equivalente, nem mesmo na imprensa não desportiva. A BOLA tinha, além de tudo o mais, uma componente literária. Lembro-me bem do Ruy Belo publicar, na BOLA, poemas inéditos.

— Influência do Pinhão

— O Carlos Pinhão tinha uma extrema simpatia. Era uma pessoa quente. É uma pena que se deixem morrer estes nomes. Era importante manter na lembrança o Pinhão, o Homero, o Miranda...

A morte do Agostinho

— O Miranda ajudou muito a fazer do Agostinho um ídolo nacional...

— Quando o Agostinho teve o acidente foi o meu irmão que o operou. Tinha acabado de chegar da América. Foi o meu irmão que me disse que o Agostinho ia morrer. Ele tinha perdido muita substância cerebral. E lembro-me do Manuel Graça dizer: o país não está preparado para a morte do Agostinho.

— O seu irmão já conhecia o Joaquim Agostinho?

— Só o conheceu quando o Agostinho já estava em coma, mas tinha um grande respeito por ele.

— É curioso como perdurou, entre os portugueses, a lembrança do Joaquim Agostinho...

— O Agostinho tinha de ser um homem inteligente. Aliás, é como no futebol. É impossível haver um grande futebolista estúpido. Pode ter dificuldade de comunicação, ser limitado nessa capacidade de saber comunicar, mas estúpido, nunca. O Maradona, por exemplo. Tal como o Eusébio, pode ter dificuldades de expressão, mas é um homem inteligente. São pessoas que pensam rápido.

Xixi ao lado do Vicente

— Fale-me da sua primeira relação com o mundo do futebol...

— Quando era miúdo coleccionava os bonecos da bola. Conhecia todos os jogadores pelos bonecos. O Grazina, o grande Patalino, o José Pedro, do Lusitano de Évora, que era o clube dos ricos. O Ernesto, guarda-redes do Atlético. O Eloi, do Estoril.

— Via-os jogar?

— Alguns, sim, mas a maior parte deles conhecia-os só pela colecção dos bonecos da bola. Os do Porto. O Barrigana, o Monteiro da Costa, o Miguel Arcanjo. E do Sporting. Muito pequeno vi jogar o Azevedo. Depois, o grande Carlos Gomes.

— Noto-lhe a paixão com que fala desses jogadores. Como foi possível perder essa relação tão forte com o futebol?

— O futebol deixou de ser um desporto. Naquele tempo havia um deprimido debaixo dos paus e dez eufóricos a mandar brasa e, disso, eu gostava. Era impensável o Travassos ir para o Benfica, ou o Coluna ir para o Sporting e isso marcava-nos a todos. Faziam com que se amasse verdadeiramente os clubes. Lembro-me de tanta gente minha amiga do Belenenses que, naquela altura, tinha as célebres torres de Belém. O Capela. O Matateu, fantástico Matateu. O extraordinário Vicente. Que grande jogador! Um dia, era eu miúdo, de calções, e, num cinema, fiz xixi ao lado do Vicente. Inesquecível. Lembro-me de ter reparado como ele era um homem baixo e, no entanto, parecia sempre grandioso no campo.

Quando o futebol era desporto...

— Você é do Belenenses, eu sei, li no seu livro... [comentário de Lobo Antunes]

— Sou, mas, hoje, poucos acreditam que haja alguém do Belenenses. Não faz sentido para muita gente que não se seja de um clube grande... [resposta de Vítor Serpa]

— Mas naquele tempo havia muita gente do Belenenses. Como havia muita gente que era do Atlético, ou do Oriental. Ser, mas ser mesmo, ou seja, não ser também do Benfica ou do Sporting. [comentário de Lobo Antunes]

— O António Lobo Antunes é do Benfica...

— Eu sou do Benfica, mas ia ver, muitas vezes, o Belenenses ao Restelo. Tinha boas equipas e o estádio sempre foi lindíssimo. Não passava um fim de semana sem ir a um jogo de futebol. Adorava, apesar de apenas ter jogado hóquei no Benfica. Nunca futebol.

— O hóquei vai definhando, hoje em dia...

— E naquele tempo até os treinos enchiam os pavilhões. Havia aqueles relatos pela rádio. O Amadeu, o Artur Agostinho, que relatavam muito bem. Sempre estive ligado ao hóquei por causa do meu pai. Aliás, havia uma fotografia do meu pai, publicada nos jornais, nos campeonatos da Europa de 1936.

— O seu pai era adepto do futebol...

— O meu pai não ia ao campo ver o futebol, porque achava que dava azar. Era do Benfica, ficava em casa a ouvir os relatos e a fazer desenhos, até dar um salto quando o locutor gritava GOOOOLO. Naquela altura o futebol era um desporto. Agora vêm aqueles tipos todos, muito senhores de si, com aqueles novos termos da pressão alta, das diagonais, o losango. Não tem interesse nenhum.

— Foi uma mudança tão radical assim?

— E os treinadores? Quando eles começam a pedir paciência e muito trabalho. Agora, é uma indústria, não é desporto. Eu que sou sócio do Benfica desde pequenino, fui deixando, gradualmente, de ir ao futebol e ainda nem sequer entrei neste estádio novo do Benfica.

O Coluna era admirável

— Qual a equipa que mais o entusiasmou?

— Uma do Benfica, na minha adolescência. Inesquecível aquela equipa que venceu a primeira Taça dos Campeões. Sei todos os nomes de cor: Costa Pereira; Mário João, Germano e Ângelo, Neto e Cruz; José Augusto, Santana, Águas, Coluna e Cavém.

O Coluna era admirável. Que grande jogador. Fazia todo o meio campo num passinho curto e tinha uma autoridade natural sobre toda a equipa.

— Tinha paixão pelo Benfica...

— Havia, nesse tempo, um amor real pelos clubes. Acho que isso se começou a perder quando o Yaúca foi para o Benfica. Hoje, não há qualquer amor pelo clube. O Dinheiro comanda tudo e isso transforma o futebol para pior. Agora, quando perdem, o treinador avisa-os de que é preciso levantar a cabeça. Antes, os jogadores sofriam mesmo com as derrotas. Agora estão-se nas tintas.

— Acha, mesmo?

— Sabe o que eu acho, Vítor. A arte, no futebol, foi substituída pela eficácia. E isso, a prazo, mata o futebol. Ainda hoje estava a ler no seu jornal. Não interessa jogar mal ou bem, o que interessa é ganhar.

— Antigamente o futebol tinha mais arte?

— Lembro-me de uma linha avançada extraordinária do Vasco da Gama, tenho uma memória tão má que me lembro de tudo, e que eu vi quando tinha cinco ou seis anos. Era notável. Equipas para quem a grande finalidade era o prazer do jogo. Havia uma dimensão lúdica em tudo aquilo. Hoje, não há. Lembra-se do Didi, do incomparável Garrincha?...

Ronaldo? Prefiro o Águas

— Agora há o Cristiano Ronaldo...

— Quero que eu seja sincero? Não me dá prazer vê-lo jogar. Dava-me prazer ver o Coluna e o Zé Águas, esse sim, que foi dos jogadores mais elegantes que eu vi jogar.

— Outro tempo, futebol mais lento, mais desenhado...

— Não posso dizer como seriam os grandes jogadores de então a jogar agora.

— O Coluna continuaria a ser fantástico...

— E era tudo limpo. O Jesus Correia dizia que o doping dele era o arroz doce da mãe. Isso também é importante. A credibilidade do jogo.

— Quando começou a perder essa paixão?

— Começo a perder a paixão quando o Benfica começa a deixar de ser o Benfica. Ao contrário do FC Porto, fundado por banqueiros, ou do Sporting, fundado por um visconde, o Benfica foi fundado por casapianos. Teve um tipógrafo como presidente. Sempre foi um clube do povo e por isso se tornou tão grande.

— O Benfica não deixou de ser popular...

— Lá em Benfica, onde eu morava, as pessoas apanhavam bebedeiras quando ganhávamos. E lembro-me de colegas meus, do liceu, me dizerem: tu és do Benfica? Mas isso é um clube de gente pobre...

— Nesse tempo, os intelectuais não se interessavam por futebol...

— Essa história dos intelectuais não gostarem e não se interessarem pelo desporto é uma treta. O Niels Bohr, dinamarquês que foi prémio Nobel da física, jogou na selecção do seu país. O Camus foi um vigoroso guarda redes. É uma estupidez completa.

Os jogadores e as manequins

— Não me diga que não reconhece talento num Cristiano Ronaldo, ou num Figo?

— Admito que o Cristiano Ronaldo ou o Figo tenham, de facto, muito talento, mas não me interessa essa indústria na qual eles têm sucesso. Essa indústria em que os jogadores têm de casar com manequins, como acontecia no Real Madrid. Você, Vítor, ainda se lembra da dona Fernanda Coluna? então hoje não podia casar com um jogador de futebol?

— Outros tempos, reconheço...

— As pessoas estavam juntas no futebol. Lembro-me de estar nas bancadas do estádio da Luz e a meu lado estarem cegos. Ouviam o relato e sentiam o ambiente. Nessa altura, para mim, toda a gente com mais de trinta anos era velha, e eu via-os a chorar quando o Benfica perdia. As mulheres nos carros a fazerem croché e, sobretudo, não havia essa promiscuidade de interesses.

— E a selecção. Não sente a Selecção?

— Sou quase como o José Cardoso Pires. Ele dizia, não sou do Benfica, sou do Nené. Eu digo: não sou da Selecção, sou do Benfica.

— Mas também já não gosta tanto do Benfica...

— Sabe, gosto deste treinador. Do Quique Flores. Li umas coisas de que gostei.

— Sobrinho da grande Lola Flores...

— Mulher extraordinária.

— No Benfica actual só gosta do Quique Flores?

— Não. Gosto muito e admiro o Rui Costa. É inteligente, parece ter uma vida estável. E ainda por cima tem um amor muito grande ao clube.

O FC Porto e Pinto da Costa...

— O FC Porto roubou o comando ao Benfica...

— O FC Porto tem um problema. Tem sucesso e não consegue ter uma dimensão nacional. Continua a ser um clube regional, com sucesso. No entanto, reconheço que, para o bem ou para o mal, o presidente do FC Porto foi uma pessoa importante no clube e até no futebol português, nos últimos trinta anos.

— Não me diga que gostava que Pinto da Costa fosse presidente do Benfica?

— Se fosse para ganhar campeonatos não me importava nada...a sério, nesta fase do futebol, não me interessa do presidente, o que me interessava é que o Benfica não tivesse deixado de ser um clube de afectos.

— Mas nem na Selecção sente esses afectos...

— Uma vez perguntaram ao José Luís Borges o que ele pensava da Argentina ganhar à Holanda e o Borges respondeu: não me apetece nada ganhar ao Erasmos. É que não se trata, de facto, de Argentina ou de Portugal. São onze profissionais e, como eles dizem, é a selecção da montra.

Carlos Queirós e José Mourinho

— Não se sentiu empolgado pelo Euro 2004?

— Não. E neste último europeu nem vi jogo nenhum. Vi a final do Mundial 2006, que a Itália ganhou e jogou muito bem. Com muita inteligência. Foi um grande jogo.

— E dos treinadores portugueses, não gosta?

— Ao Jorge Jesus, por exemplo, acho uma certa graça. Ao professor Carlos Queirós acho menos.

— O Mourinho?

— Acho que não vai ter, em Itália, o sucesso que teve em Inglaterra. Não conheço o homem, gostava do pai dele, que foi guarda-redes do Vitória de Setúbal e do Belenenses, mas a ele acho-o muito arrogante.

— Faz parte da imagem...

— Não gosto de ver os treinadores como umas figuras distantes, que nem comem à mesa com os jogadores e que passam a vida a fazer treinos à porta fechada, para esconder a táctica. E também não gosto dos treinadores que passam a vida a falar naqueles termos que eu detesto, as linhas de passe, a pressão alta, os losangos. Posso parecer um velho saudosista a falar, mas, para mim, o futebol pelo qual tinha paixão era o do deprimido debaixo dos paus e dos dez eufóricos a correrem no campo e a mandarem brasa.

— Mas tem admiração por um grande jogador de futebol?

— Eu olho com o mesmo respeito para um grande jogador de futebol como olho para um grande escritor. Para mim são artistas que encheram de alegria a minha vida: Desde a infância.

— O que não gosta mais nos clubes de futebol?

— Aquelas claques organizadas. Acho-as horríveis... os nomes dos patrocinadores nas camisolas... e aquilo que ainda hoje li na BOLA, do campo de treinos do Benfica ser a Caixa Futebol Clube, ou lá como se chama aquilo.

— Sabia que para falar a um jornal o jogador tem de pedir autorização à direcção do clube?

— Porquê? Um jogador não tem liberdade de falar a quem quiser?

— Não, não tem...

— Não sabia que era assim. Não fazia ideia...Mas há alguma razão para ser assim?

— Os jogadores podem dizer algo que não interesse ao clube. As coisas são mais controladas...

— Quando o Ângelo chamou ao Costa Pereira «ladrão do meu dinheiro», todos os jornais trouxeram isso...

— Pois, mas hoje teria de pagar uma enorme multa...

— Por isso, antigamente, os jogos prolongavam-se por discussões na segunda feira. Era assim quando estava no Hospital. Hoje, de facto, já não vejo esse entusiasmo da discussão do futebol à segunda feira...

— Até porque há jogos quase todos os dias na semana...

— Mas cada vez menos gente nos estádios. Isso, eu sei.

Médico no futebol

— Quando estava na tropa, colocado no Hospital militar de Tomar, fui médico do União. O treinador era o Fernando Cabrita. Formavam a equipa com restos do Benfica, do Sporting e do FC Porto e eu sentava-me no banco. Era o Nascimento, que tinha sido guarda-redes do Belenenses, o Calado, o Totoi, o Barnabé. Eles estavam a jogar mal e o presidente dizia: dou mais quinhentos escudos a cada um. E o massagista, muito gordo, começava a correr pela linha lateral, com uma botija na mão, e gritava para o campo: mais quinhentos escudos, mais quinhentos escudos, e eles começavam todos a correr mais depressa.

Barrigana ...no plural

Aquela sua crónica sobre o Barrigana, ficou célebre...

— Foi quando estava na tropa, em Malange. Foi aí que eu vi o grande Barrigana, que estava em África a treinar miúdos. E os miúdos puxavam por ele e gritavam: vai Barrigana, anda Barrigana, e ele, muito sério, virava-se para os miúdos e dizia: vai Barrigana, não. No plural, se faz favor. Senhor Barrigana.

Ciclismo, livros e tourada

— Estava sempre a dizer ao Miranda que gostava de fazer uma Volta a Portugal...

— Está a tempo, A BOLA leva-o...

— Mas eu estou sempre a escrever. No Verão nunca posso. Agora, este livro que eu comecei em Fevereiro, não sei quando vai estar pronto...

— E esse livro está a correr bem?

— Um livro nunca está a correr bem...

— Li numa entrevista que o livro tem a tourada como tema.

— Não, não é nada disso. Não é sobre touradas. Eu nem gosto da tourada à portuguesa. Gosto da tourada à espanhola, embora não seja um aficionado. Mas gosto. Aquilo é trágico. Tem a majestade que a nossa não tem. Na nossa vão a correr, a correr, e pumba, espetam as bandarilhas no boi. No tempo do João Núncio não era assim, agora, aquilo, é um farró-bó-dó. Mas eu queria dar uma estrutura aquilo. O livro acaba com a morte do touro que é a morte da mãe. Trata-se de uma família... mas o ciclismo, estava a falar de ciclismo, ainda gosto imenso de ver as imagens da Volta à França.

— É uma corrida notável...

— Aquelas montanhas... O Marçal Grilo diz, e com razão, que ninguém sobe aquilo só a comer bifes...

As brasas do Ronaldo

« ...Vejo-as quando vou aos quiosques. Parecem todas desenhadas pelo Vilhena»
— Sabia que Cristiano Ronaldo pode vir a ser nomeado o melhor jogador do mundo?

— Não me interessa muito. Sei que é muito popular. Vejo nos quiosques as fotografias das brasas com que o Ronaldo namora. Parecem todas desenhadas pelo Vilhena.

— Tão curvilíneas, que parecem feitas em banda desenhada...

— É... e você, diga-me lá, quando joga a Selecção, ainda sente alguma coisa?

— Mesmo como jornalista, sinto. Gosto de ver a Selecção e quero que ganhe. Temos bons jogadores e há ali gente boa...

— Isso, eu admito que sim. Já o Miranda me dizia que o mais puro no futebol eram os jogadores.

— Às vezes um bocado manipulados...

— Mas isso também eu, às vezes, sou manipulado pelo editor. É inevitável. O Zé Cardoso Pires dizia que um escritor não podia ser amigo de um editor, porque os interesses são opostos.

— Mas o António Lobo Antunes tem estado em alta. O seu último livro, o Arquipélago da Insónia...

— Sim, está a ter uma grande procura e só foi posto à venda na última sexta feira.

— Era muito amigo do José Cardoso Pires?

- Uma amizade diária.

Cavalos que fazem sombra no mar

«Quando comecei o 'Arquipélago da Insónia' não tinha nada. E neste só tinha uma frase...»
— Deixe-me falar do seu novo livro...

— Não se pode falar de livros?

— Acha que não?

— Consegue falar do seu?

— Deixe-me desafiar, pelo menos, uma ideia que o Arquipélago da Insónia me suscitou. A ironia de dizer sempre que escreve muito devagar e do seu livro nos obrigar a um tempo rápido de leitura, para conseguirmos acompanhar a musicalidade das palavras...

— É curioso que sinta isso. Não lhe sei dizer. Sou incapaz de ler um livro meu depois de escrito. Não sei.

— Mas está cada vez mais distante, nos livros, das suas crónicas na Visão. É verdade que escreve crónicas por atacado?

— É tão diferente o que se escreve, num caso e noutro. Nas crónicas posso escrever catorze crónicas seguidas. Preciso de resolver assim o problema da mudança de ritmo. Por isso eu lhe dizia que, no seu caso, não deve ter sido nada fácil mudar de ritmo da escrita de jornal para a escrita do livro que publicou.

— Por isso são contos...

— Eu nunca escrevi contos, mas um conto não se faz numa noite. Será difícil, ainda assim...é muito difícil estar a escrever um livro, largar e escrever crónicas para jornais e voltar ao livro. Muito difícil.

— Não lhe aparece gente a falar-lhe mais das crónicas que dos livros?

— Aparece. Mas a minha dúvida é se muitos daqueles que me lêem na Visão vão depois ler os meus livros...

— Muitos, seguramente, sentir-se-ão tentados a fazê-lo...

— Mas é como a diferença entre uma piscina para crianças e uma piscina para adultos. Afinal, uma crónica para jornal, ou para uma revista, tem sempre pé...

— Este seu livro, o Arquipélago, é mesmo muito especial...

— Mas quando o comecei não tinha nada.

— E no novo?

— Este? tinha uma frase. Tenho um grupo que almoça às quintas feiras. Um professor da faculdade de letras, um oftalmologista, um editor e há também dois cantores, entre eles o Vitorino. Aqui há um ano estavam a cantar uma moda velha do século XIX, por alturas do Natal, uma moda do interior do país, gente que nunca vira o mar, e quando chega a altura de descrever os reis magos, o poeta, que não se sabe quem é, poeta anónimo, escreveu isto: que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar? E isto ficou-me cá dentro. É de uma beleza que eu não resisti e pensei: vou chamar o livro assim. O título é grande de mais, mas é tão bonito que ficou assim.

Mais mortos que glóbulos

— E tão injusta a morte. Principalmente, a morte de quem a gente gosta. É muito dolorosa. O pior é que se chega a uma altura na vida em que temos mais mortos que glóbulos nas veias.

— Os amigos...cada vez menos...

— É. Às vezes eu esqueço-me da idade e digo em casa: lembras— te daquele rapaz da minha idade? E as minhas filhas, logo: rapaz...?

— Sei o que é isso. Também tenho duas filhas?

— Tem duas filhas? E os ciúmes que eu tenho dos namorados delas?...Você também tem?

— ...

— E já tem netos?

— Uma neta.

— Eu tenho um neto. Anda nas escolas do futebol. É a mãe que o leva, mas parece que corre muito atrás da bola...e eu pergunto-lhe: ouve lá, como é que se chama o teu treinador? E ele, muito sério: mister!

Força Benfica